O Eduardo começou pelo fim. Eu não o vou contrariar e faço o mesmo!
Quando um dia eu descer à cova escura,
Para subir, ou não, à eternidade,
Não quero um lamento de amargura,
Daqueles a quem eu deixar saudade.
Quando eu pousar à fria sepultura,
Que aqueles que me amaram de verdade
Entoem, bravamente e em grande altura,
Um hino que cante alto essa amizade!
Que gritem o amor que, em facho ardente,
Pousou na dura tumba do meu peito
(E aqui ficou pousado, eternamente);
Que cantem, mesmo os que não têm jeito,
Aqueles que me amaram bravamente,
Quando eu adormecer no eterno leito!
Nesse dia, ao pousar eternamente
Esta minha alma em espaço definido,
Rasguem-se em pranto os olhos dessa gente
(Os que na vida tanto me hão traído);
Que nessa hora o povo seja crente
Que eu só queria ser amado e não ferido,
Chore, pois, nessa hora, amargamente
Enquanto não se houver arrependido!
Desses que tanta vez me hão negado
O carinho e a amizade que eu pedi,
Não ficarei esquecido, nem magoado;
Dos que, nas horas duras que vivi,
Amargamente tanto hei falado,
Deus os perdoe, como eu os redimi!
E, aqueles a quem, bruto, hei magoado
Nas horas mais difíceis de tragar,
Como mendigo peço, ajoelhado,
Antes de ao frio pó eu regressar:
Que nessa hora tenham já perdoado
A minh’alma, o meu peito e o meu falar,
Que momentos difíceis hão causado
Quando, em mim, o amor fel estava a amargar.
E ao Céu elevo a voz e atiro ao vento,
Agora, antes do tempo ser já ido,
Que Deus dê muita força e alimento
Aqueles a quem, bruto, eu hei ferido;
Que lhes dê a recompensa no momento,
Aquela que eu não dei enquanto vivo!
E a quem, em vida, amei com muito alento,
Que seja, no momento derradeiro,
Possuído por esse sentimento,
Que, em tempos, ateara o meu braseiro.
Nessa hora se esqueça o meu talento,
Que nunca foi engenho verdadeiro,
Que de tudo se esqueça o pensamento,
Até do amor que foi mais traiçoeiro!
Que a Justiça leal desça dos Céus,
Nessa hora se rasgue a fria tampa
Da tumba, onde descansam os restos meus,
E, que repouse sobre a minha estampa
A sentença que vem da voz de Deus...
— Quão será pesada funérea campa?